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Escolas profissionais alertam para formação de mais quadros superiores

Escolas profissionais alertam para formação de mais quadros superiores

Com uma minoria de alunos a escolher a via profissionalizante no secundário e cada vez mais diplomados no ensino superior, as escolas profissionais alertam que o país está a formar mais quadros superiores do que intermédios.

Quando chegam ao ensino secundário, a maioria dos alunos escolhe continuar em cursos científico-humanísticos, em vez de seguir para cursos profissionais que representam pouco mais de um terço dos jovens matriculados nesse nível de ensino.

Com este número, Portugal mantém-se longe de atingir a meta dos 50% de alunos no ensino profissional, definida pelo Governo, e o resultado de saírem desses cursos poucos estudantes já está à vista, apontou o presidente da Associação Nacional de Escolas Profissionais (ANESPO).

“Sem haver mão de obra qualificada, naturalmente que depois não há mão de obra nas empresas, e esse é o nosso grande problema”, resumiu José Luís Presa em declarações à agência Lusa.

Recentemente, vários setores de atividade que começam agora a recuperar, depois de mais de uma ano e meio afetados pela pandemia de covid-19, relataram um problema de escassez de mão de obra, como é o caso do turismo e restauração ou da construção civil.

Para o representante das escolas profissionais privadas, que foram mais de 30% dos alunos matriculados em cursos profissionais, uma das causas para essa carência é encontrada precisamente ao nível da formação.

“As escolas profissionais têm vagas para duplicar, praticamente, o número de alunos e têm instalações e equipamentos para isso. Só que os alunos não são orientados para cursos profissionais”, descreve José Luís Presa.

No seu entender, persiste um estigma associado ao ensino profissional que é sobretudo construído nas escolas e, por isso, quando chegam ao final do 3.º ciclo, a maioria não vê a via profissionalizante como uma opção.

Este cenário contrasta, por outro lado, com a experiência do ensino superior e, em particular, do ensino politécnico que tem registado um aumento significativo no número de alunos, tanto em licenciaturas como em cursos técnicos superiores profissionais.

Para o presidente da ANESPO, o resultado da conjugação destas duas tendências é problemático: “Temos uma pirâmide invertida, com mais técnicos superiores do que quadros intermédios”.

“O caricato da situação é que temos 40% de diplomados no ensino superior e temos 35% nos quadros intermédios”, sublinha, questionando “para que servem os técnicos superiores se não tiverem quadros intermédios para chefiar e para orientar”.

Por isso, José Luís Presa reforça que a escassez de mão de obra em determinados setores não se resolve com a formação no ensino superior, mas antes ao nível das escolas profissionais, com políticas públicas que visem orientar os estudantes menos para os cursos cientifico-humanísticos e mais para os profissionais, não invalidando que depois prossigam os estudos nas universidades e politécnicos.

E acrescenta: “Deveríamos fazer um diagnóstico das necessidades a nível nacional, quantos são necessários [para os diferentes setores de atividade], e depois orientar os alunos em função desses setores”.

O presidente da ANESPO comenta ainda o problema atual, dando o exemplo do setor da construção civil em que estão em falta, segundo a Confederação Portuguesa da Construção e do Imobiliário, 70 mil trabalhadores.

“Sabe quantos jovens é que saem das escolas profissionais para alimentar essa área? Zero”, relata, acrescentando que nem o conjunto das escolas profissionais consegue formar na totalidade tantos alunos anualmente.

A necessidade de formar mais alunos é também sublinhada pelas próprias empresas que, segundo José Luís Presa, anseiam que os alunos terminem os cursos e desejavam que fossem em muito maior número.